O Jardim Proibido

Colecao de textos meus, escritos da adolescência até a vida adulta. A maioria destes poemas ficaram guardados a sete chaves e por fim esquecidos por quase uma década, exceto os datados de 2005.

Thursday, February 23, 2006

Combustao

Com tua falange distal tocaste minha coluna vertebral
Com medo, mas curioso pela robustez de meus ossos.
Tocaste-me como se eu fosse tua irma, tua amiga ou uma amante.
Tanto faria
A ponta de teu indicador iniciou a reacao
Como uma varinha de condao
puxou minha Kundalini da base do meu útero
até meu chakra coronário
Foi a cabeca do fósforo que riscou a caixa
Teu dedo riscou minhas costas
Tatuou tua insígnia invisível
Indelével em minha pele
Acendeu o alerta vermelho
Mandou o elevador para o último andar
Para a cobertura
Onde apreciei a noite
Tomei sereno numa taca de champagne
Onde contei os carros abaixo
e as estrelas fugazes acima
Sonhei com você, com nós
E fizemos amor.

Cinestésica

Cavarei a terra com cacos de estrela
Até minhas maos sangrarem
Aí sim terei encontrado o mais belo granito
no ventre da Mae Gaia
Vou esculpir tuas feicoes na pedra
Quero gravar tua beleza, teu sorriso, tua juventude
Quero talhar em pedra minhas impressoes
Registrar minha adoracao.
Posso fazê-lo de olhos fechados
Tantas vezes foram que minhas maos
em sonho pousaram em teu rosto
Miosótis serao teus olhos
Segurarei finalmente tua cabeca entre minhas maos
Soprarei minha alma em tua boca
Irradiarei minha energia em tuas têmporas

Que o tempo nao destrua
O que merece ser visto por todos os olhos
Que no próximo milênio
encontrem esta cópia tua
E arqueólogos concluam
Que se tratava de um deus
Que recebas uma câmara em algum museu
Somente para seres admirado

Que nao seja tua máscara mortuária
Mas uma ode à maravilha
O retrato de tua vida.

Querer

Nao te quero por uma noite
Nem somente para satisfazer a luxúria
Por um tempo pensei em ti assim
Como um calor que me subia entre as pernas
Uma eletricidade nas solas de meus pés
Mas seria pobre te ter como objeto
Tens tanto para me dar
Quero você para ser meu amigo,
para me contar histórias e fazer rir
Quero te ter prisioneiro de sua própria curiosidade
E que ela nunca se esgote
Sempre querendo saber o que penso
Quero te ter sempre assim, ao meu redor
com os olhos fixos em mim,
Mesmo quando te ignoro
Mesmo quando brigo contigo.
Quero você para me desafiar,
para ser diferente de mim,
me colocar em xeque-mate,
Duelas com minhas palavras
Para depois fazer as pazes
Na cama, de preferência.
Quero você aticando minhas idéias
Provocando meus instintos
Me tirando do sério
Arrancando minha roupa.
Quero você perto de mim
Sentado ao meu lado
Olhando o por do sol.
Quero você para uma vida,
para atravessar um deserto,
para te levar a uma ilha deserta.
Quero você para ter um filho,
eternizar teu sorriso, teu nome, teu DNA.

Wednesday, January 04, 2006

Por você

Por você eu exploraria mais meio mundo
eu largaria mais meia família
eu ficaria analfabeta de novo
eu venderia tudo pra partir sem nada
novamente.
Justificativas toscas, palavrórios inúteis
Nada disso tenho a te oferecer.
Só tenho o presente e o futuro.
E talvez você olhando o passado
possa encontrar alguns caquinhos
que me sirvam para te fazer um mosaico
na parede do nosso quarto.

(22 de dezembro de 2005)

Gênio mau

Teu gênio me espreita atrás dos umbrais das portas
ri da minha miopia, do meu mau jeito
da minha barriga.
Teu gênio sorve tudo o que há em mim sem reter uma fracao sequer.
O teu gênio critica, cacoa, se irrita.
O teu gênio é o caroco do seu pêssego
a porcao mais difícil do teu eu.
O teu gênio suga, grita, possui, domina.
O teu gênio nao deixa nada fiado,
nao dá desconto e nao negocia prazo de entrega.
O teu gênio monta, desmonta, constrói, desconstrói.
Só ainda nao inventou de demolir.
É altivo, indiferente e radioativo.
É uma usina de desconfiancas e reticências.
Prende-me à mesa fincando um garfo na minha manga.
Me tortura pelo próprio prazer.
É atormentado
É o lobo em pele de cordeiro
É o ciúme que testa o amor.

(22 de dezembro de 2005 - 23:00)

Inverno

Dentro de mim hiberna um urso
Este estranho animal agressivo
Seus olhos sao de uma ternura infinita
Mas seus dentes quase se rompem
À pressao de suas mandíbulas.

Seu inferno é si mesmo
É sozinho em seu mundo
Por ninguém partilhar suas dores e sedes
Vive no escuro
Para que jamais o conhecam

(Marco de 2005)

Friday, December 23, 2005

Sem você


Stream Lily by Selina Fenech Copyright 2005

Sem você meu coracao bate em pancadas
Sem você minha boca fica seca
As sombras desfalecem pelas paredes
O dia desmaia em azul-marinho.
Sem você as plantas morrem secas
As plantas morrem de tanta água sem você
O relógio é minha única companhia sem você
A minha vida é uma música de uma nota só.
O teu orgulho me envenena o sangue
me corrói o estômago
me dói nas costas.
O mundo é oco sem você
Sem você o meu coracao é mais oco ainda.
É um purungo imprestável
onde nem os passarinhos farao ninho
Sem você a cor vermelha desbota
O azul empalidece
A lua cheia se afoga no mar.

(22 de dezembro de 2005 - 23:10)

Monday, December 19, 2005

Nascimento

Figura: Beltane by Jessica Galbreth Copyright 2005




Existe um livro despontando dentro de mim
Está crescendo,
Oprimindo meu coracao
Diminuindo minha fome
Posso sentir a urgência de suas arestas
Quase rompendo meu esterno
A dor pontiaguda do verso ainda nao nascido
Fico arredia
Aficcionada e esquisita
Fujo e me escondo para escrever
Ninguém entenderia
Tento conversar e trabalhar
Mas as palavras do livro vêm à minha boca
Num diálogo desconexo
Meu marido me estranha
O gato fugiu do meu colo
Meus parentes me esqueceram
Amigos andam dizendo que perdi o juízo
Preciso desta solidao
O meu ser é perturgado
Por este livro se avolumando no meu interior
Passo as noites em claro
Parindo idéias e palavras
Num parto sem assistência
Agonizo a cada parágrafo nao escrito,
a cada farfalhar de suas páginas
Ouco vozes
Fico distraída e distante
Podem me chamar de louca
Até peco desculpas,
mas Deus me fez assim.
Nao tenho outra escolha
A nao ser trazer à luz
As palavras que brotam em algum lugar de mim.

(11 de novembro de 2005 - 23:50 PM)

Eu?

Figura: Frolic by Selina Fenech Copyright 2005




Fabrico minha aparência
Cada dia, ao acordar,
Penso em como gostaria de parecer:
Com uma boneca
Com uma capa de revista
Com uma garotinha
Com dez anos a mais, ou
Como uma egípcia,
ou uma intelectual
Ou uma índia,
ou uma vagabunda,
uma londrina ou uma patricinha
Quem sabe uma americana.
Distribuo pistas falsas
Mudo as atitudes e as falas.
Meu eu foi abortado.
Nem sei qual delas é realmente eu.

(01 de fevereiro 1996)

Fim

Figura: Tomboyprint by Selina Fenech Copyright 2005




Quando senti em seus olhos o último lampejo de esperanca. O bote da áspide arrancando do meu peito o coracao pulsante, penetrando na floresta e adentrando o infinito lago. A mao violenta extirpando meu relicário vivo, com seu punho arremessou-o para dentro da terra, como o cianeto liberta a alma do imundo cárcere: A porta é aberta e ela mansamente retira-se, sem reacao, sem dor, sem violência, sem choque, sem palavras. Assim como serena entrou, a alma, um dia sairá.
O silêncio cristalino do último sorriso, apenas o rugir das carrocas que me levariam até minhas muralhas, até meu castelo. Atravessando o lago povoado de monstros que o cerca, pela ponte levadica de correntes enferrujadas. O cheiro conhecido do meu leito, lugar de onde nao deveria ter saído. Cerrando-se os portais atrás de mim pelo resto da eternidade.
Seu olhar filtrado, buscava-o através da névoa, mas ele voltava para o infinito do lago. Suas palavras morriam como setas que desmaiam no ar sem jamais atingir o alvo e perdem-se na densa vegetacao. As malditas últimas flechas envenenadas... Extingüiram a beleza do Universo, cujo corpo eu acariciava entre os bracos, com a ternura de uma mulher que tem o primeiro filho em idade avancada, e a Morte o leva...

(02 de agosto de 1993)

Onírica

Figura: Hide and Seek by Selina Fenech Copyright 2005




Deitada no bosque
Perdida pelos caminhos
Esperava o tempo morrer
Contando a mim mesma
Minhas venturas
Como se tentasse provar que momentos felizes existem.

Afundada nos bracos verdes do bosque
Pensando longe,
Temendo insetos,
Navegando no mar,
Adormeci e sonhei
Com nosso encontro além-túmulo
Nos jardins orientais
Acordei com o frio da noite
Eis que trazendo um xale, vinha meu amado
O qual a morte levou alguns dias após.
Deus, oh Deus! Arrebata-me daqui
Leve-me para os jardins do Seol
Onde meu amado deitado na relva
Conta estrelas no espelho das águas.

(01 de junho de 1995)

Amor como um barco

Figura: Dragonfly by Selina Fenech Copyright 2005




Construí um barco
Com o que há de melhor e mais belo.
Coloquei-o no mar
Meu espírito soprava as velas
Minhas maos acalmavam o temporal
Minha boca sorvia as nuvens
Para que o barco navegasse mansamente.
No Equador o sol tentava rachá-lo,
Mas eu o cobri com meus cabelos.
Assim amo intensamente
E protejo minhas ilusoes
Até que o sol de domingo se oculte no poente.

(01 de junho de 1995)

Ciclo

Figura: Moon child by Selina Fenech Copyright 2005



Liberte os bracos
Respire fundo...

Os olhos
O sorriso
O coracao
O encontro
As palavras
O toque
O beijo, os bracos
O prazer
A morte...


A ressurreicao.

(01 de junho de 1995)

Paixao cega

Figura: Carry me home by Selina Fenech Copyright 2005



Nossos olhos dizem
O que nossas bocas nao precisam dizer.
Nossos olhares suplicam e imploram
e nos conduzem cegamente.
Jamais proferimos palavra alguma entre nós,
se tornaram desnecessárias.
O que sentimos nao se mede em palavrórios ou discursos.
No entanto, sabemos o que ninguém poderia imaginar.
E desfrutamos, só nós dois, deste mistério.
Esta delícia impalpável,
Mas vivente e real
Na qual apenas nós vivemos,
Como um Éden privativo.
E nos tornamos guardiaes deste inestimável tesouro.
Com os corpor negamos
E quando nossos olhares se tangem,
Nos entregamos um ao outro na mais intensa volúpia.
A cada dia se torna mais alta a muralha que nos separa
E mais longo o túnel subterrâneo que nos une,
Como a dois campos de batalha inimigos.
Nao podemos ser um do outro.
Bloqueamos e resistimos
Boicotando a porcao mais prazerosa da vida.
Meu Deus! Até quando?

(06 de junho de 1995)

Flor do deserto

Figura: Lavender Moon by Jessica Galbreth Copyright 2005


Uma flor nasceu no deserto dos teus olhos.
Diante do sol ela murcha e quase morre.
Porém a noite chega e entao pode abrir suas pétalas.
Tempestades de areia tentam arrancá-la
Mas suas raízes sao fundas e trazem
a seiva em meio à agonia.
Assim vive gloriosa em seu tormento
Cada dia é um desafio
Por desconhecer teu amor.
Sem sabê-lo já adivinha.
Envia pássaros emissários que morrem ao retornar.
Nunca soube a resposta...
Nunca saberá.

(25 de marco de 1998)

Desfigurada

Figura: Maske of Green Woman by Jessica Galbreth Copyright 2005


Se eu morrer de amor por você
Nao deixem que veja meu corpo
Para que nao saibam, nunca,
O quanto esta dor me torturou.

(25 de marco de 1998)

Rebeldia

Figura: Morgana by Jessica Galbreth Copyright 2005



A rebeldia é uma tentativa de provar amor:

Amamos, mas somos fracos para crer que também somos amados. Daí nasce a rebeldia. Nos tornamos transgressores para dificultar que o outro manifeste seu amor por nós. Se o outro ultrapassar o obstáculo, é porque somos realmente amados.

O ser rebelde é testar o amor do outro através de uma corrida de obstáculos.

Ser rebelde é dizer: Sou diferente, sou mal, sou subversivo. Sei disso e te amo. Quero sua atencao e que acima de tudo, me aceite como sou.

O rebelde é egoísta, mas se for domado, nao sabe como se comportar e tende a se anular. Vive em funcao do ser amado e dá de si tudo o oque pode.

O amor acalma o rebelde. Dá a ele paciência, paz de espírito e meiguice. O rebelde se torna feliz e abandona suas bandeiras. Torna-se um humano normal.

A rebeldia tem por objetivo chamar atencao sobre si.

A rebeldia é uma lâmina tao afiada que fere a mim, rebelde, também. Ela corta simultâneamente ao outro e a mim.

Mas existem perguntas que faco a mim mesma: Por que nao nos sentimos amados em hipótese alguma? Será que todos nós, rebeldes, temos dificuldades de se auto-amar? Será que a nossa única necessidade é ser amado? Por que nao permitimos sermos tocados? Por que corremos para longe do amor? Por que o amor nos assusta tanto assim? Por que nos fechamos em nós mesmos e concluímos que o mundo nao tem mesmo solucao?

Se eu for abracada e beijada com amor, neste mesmo momento, juro que nunca mais serei rebelde!

(14 de janeiro de 1996 22:55)

Trilhas da Alma

Figura: Fairy of Dreams by Jessica Galbreth Copyright 2005



Parece que submergi de minhas próprias profundezas. Posso me apalpaar e sentir que sou real. Meu medo fugiu de mim. Perdi o medo. Olho assombrada para o turbilhao que deixei atrás de mim. Matei o touro a unha. Minha forca me impressiona. Mas nao me empolga. Poderia perfeitamente ter me perdido, ter engolido minha própria cauda. Mas, ao contrário do esperado, me superei. Sinto-me vitoriosa. Sei de minha forca, mas me coloquei num jogo que nao tinha certeza se escaparia. Nao me sinto mais sozinha. Me sinto triste, ferida. Quero sossego, ficar quieta no meu canto. Estou cansada de guerra. Chega de briga. Quero paz. Quero sincronizar minhas energias com a Terra e com as pessoas. Estou num patamar mais elevado de desenvolvimento. Enxergo com mais clareza. O que vejo me assombra. Galguei um posto mais alto e estou me adaptando. Sou feliz porque tenho várias coisas que considero importantes e que muitas pessoas nao conseguiram. Eu consegui. Porém sinto uma tristeza longa e profunda. Se apodera de minha essência e vivo num azul infinito. (A tristeza é azul). Me desliga da realidade real. Vivo em mim. Esta tristeza deve ser inerente a mim. Sempre fui assim. Apenas de vez em quando, algo a sobrepoe por tempo indeterminado.
Será devido à minha indisciplina que ela me domina? Considero este o meu maior defeito: a indisciplina. Mas nao sou deprê, nem fossa. Pelo menos nao me considero. Essa tristeza se mistura com preguica, com arredamento do convívio social.
Procuro prever minhas falhas e administrá-las. Mas é impossível prefer o futuro...! No entanto, sinto meu avanco em relacao à outras pessoas. Surge um questionamento em mim: Nao estou passando a mao nos meus defeitos e...? Acho que nao.
Nao estou bem certa do que penso. Estou sujeita a n variáveis.
Preciso amar. Perdi o medo e agora estou pronta. Só preciso de um tempo para passar esta tristeza que me envolve como uma neblina e enjm sinto meus pés sobre o chao. Quero aprender.

(16 de janeiro de 1996)

Monólogo

Figura: Atlantis Birth of Mermaids by Selina Fenech



Adquire várias formas, tamanhos e cores. Porém nao consigo identificar nenhum. Quase consigo tocá-los, mas chegando mais próxima, o chao se abre diante de meus pés. Fico sem saber oq eu realmente perdi. Onde errei desta vez? Usei as máscaras erradas nos momentos certos? Empreguei mal meu tempo? Estou sozinha. Às vezes durante à noite vago pelos lugares, à espera de um "boot". Li meu futuro nas cartas, elas nao mentiram... Viro um zumbi das minhas fantasias mortas, chacinadas jogadas em terrenos baldios, boiando nos tanques, desfiguradas, esquartejadas, marginalizadas e escancaradas em folhetins sensacionalistas. Perdi o mapa e a lanterna, estou no mato em meio à escuridao. Ouco ruídos ao meu redor, sinto algo rocando no meu braco. Uma respiracao atrás da minha orelha. Algo que vive, mas nao se manifesta e me acompanha por onde eu vá. Sinto os aromas da desolacao e da absoluta solidao da mata. Chega a doer nos ossos de tao presente que ela se faz. Vejo as outras pessoas fora de mim. Como se eu estivesse numa redoma de vidro, separada em minha realidade paralela e elas no mundo real. Elas conduzem suas vidas de formas semelhantes. Raras vezes me acompanham em minhas empreitadas. Me sinto um bicho estranho. Algo a ser pesquisado e analisado e ao mesmo tempo tao vazio, tao banal. Desejo algo impossível. Algo que nao sei precisamente definir. Esse algo surge e se encaixa, ou nao. Tento pisar em lugares, apalpar situacoes, evocar lembrancas, sensacoes... Impossível! Revivo o passado. Agonizo pelo futuro. Devoro o presente. Preciso abortar esta etapa que se prolonga e insiste em ficar. Nao faz parte de mim e me aterroriza. Ensombra meu caminho e confunde os meus sentidos. Preciso canalizar meus sentimentos. Jorrar minha energia. Estou cansada. Preciso dormir...

(08 de novembro de 1995 23:59)

Reflexoes

Figura: Ceres (se alguém souber o autor, por favor me avise!)



Às vezes me questiono sobre o sentido das coisas. Sei que você também. No fundo as grandes incógnitas nao tem porquê. Sao porque têm que ser assim. Ninguém sabe, apenas deduzimos que devemos fazer o melhor. Racionalizar nossas dúvidas nem sempre é fácil. Cada um enxerga o prisma de um lado. Temos medo da verdade. Ela nos atira terra ao rosto, porém nos ama. Só que nossos sentimentos se apresentam de uma forma assustadora. Bombardeiam nossas mentes, explodem, prostram nosso corpo, pungem nossa alma. Depois nos deixam como o mar que é um pedaco caído do céu. Como o deserto, cuja areia é a fronteira entre o espírito do ar e a matéria. Ou entao caem como um bloco de concreto esmagando o crânio. Sou como o soldado que marcha para o campo de batalha com a certeza da morte, mas sei que antes de cair por terra, abaterei milhares.

(15 de outubro de algum ano)

Teus olhos


Figura: Pearl Mermaid by Selina Fenech


Teus olhos ornamentam meus sonhos
Teus olhos atormentam meus dias

Nos meus sonhos me tocas como galhos de árvores
que se encontram por cima da rua.
Teus olhos mentiram para a minha razao
Teu sorriso me desmancha as palavras,
Como o Sol que seca o leito de um rio.

Nos meus sonhos embrulhas um presente para mim
Em folhas com poemas escritos.
Nos meus sonhos tua caligrafia me imprime o amor
Nos meus sonhos teu sorriso é meigo
(E nao me castiga como na vida desperta)
Nao me pedes para soletrar o impossível
Nao pisas em minhas vas poesias
E sempre tens bracos para me acolher.

Durante o dia,
Carregas em tuas maos uma tesoura
Com ela crias novas formas
Mas também despedaca os meus sonhos.
Nos meus sonhos nao despes a roupa,
mas sim tua alma em um único sorriso.

Meus sonhos sao o ápice da tolice de um apaixonado
Meus sonhos transformam a barbárie em nobreza
Meus sonhos sofrem de miopia
Meus sonhos sao a exaltacao
De tudo o que nao posso tocar.

19 de outubro

O tocador de realejo


Tapecaria de Eila Ampula

O tocador de realejo

Só de vê-lo já me corta o coracao.

Num dia cinzento
Numa opulenta cidade
Entre as vitrines mais glamourosas
As ruas estao apinhadas
Por pessoas de todas as idades
Afoitas pela nova colecao de inverno

Num dos enderecos mais caros do mundo
Seres humanos gastam com prazer
O que daria para sustentar
Uma família do submundo por um ano.

Estas pessoas tanto gastam
Enchem a barriga com o melhor caviar
E do mais precioso champagne
Mas se esqueceram de como sorrir
Caminham blasé e sem desejo
Programadas pela mídia que as faz consumir

Mas o tocador de realejo insiste em sorrir
E tenta trazer as pessoas
Para seu mundo lúdico
Mas sequer é retribuído com um olhar
Ou uma moeda, que seja!

Mas ele é persistente.
Todos os finais de semana
se barbeia e poe seu melhor terno
Fora de moda, é verdade
Mas nao estará sua alegria fora de moda também?

O tocador de realejo nao se importa
reanima as raízes da nossa infância
Rompendo a terra batida da nossa vida adulta
Trazendo nossas ternas lembrancas à tona.

Leva sua música, seu realejo e sua graca
Para uma multidao robotizada
Numa cinzenta tarde de outono

O tocador de realejo
É o portal para outra dimensao
Ao seu redor voam borboletas
Salpicam bolhas de sabao
Na moldura de um arco-íris
A turba, porém, nao o percebe
ocupada demais em seus sonhos de consumo
É como se o tocador de realejo nao existisse

É como se pertencesse
A outro mundo
E de fato pertence
Ao mundo onde vivem os poetas,
os malabaristas e as fadas.

Sua música e suas cores, somente os loucos a percebem!

Por isto é ignorado.

O tocador de realejo é altruísta
Porque a alegria que traz em si
já é pagamento suficiente
E tranbordá-lha soa-lhe como uma caridade
Para tantas pessoas sedentas de emocoes
Insiste em dar sem receber nada em troca
Insiste em resgatar o sorriso das criancas

Ele é um sonhador e acredita num mundo melhor
É o arauto do reino dos céus

Só os tocadores de realejo conhecem a partitura
das folhas que caem
das rochas que crescem
do farfalhar das asas das aves migratórias

Por isso toca para o nada
Pois para o nada viemos
E para o nada um dia voltaremos.

Mas o tocador de realejo se transformará
em duende ou em fada na alma de uma caixinha de música.

(24 de outubro de 2005) - Para meu pai

Abandono

Perco a hora
Perco o fio da meada
Perco a voz
Perco a razao
Perdi o contato...
No momento supremo
Você nao está em mim
E calo seu nome
Minha alma dói
Tento escapar
E dói mais e mais.
Tenho sede e minhas ilusoes nao podem aplacá-la
Estou atada à minha cama
Minhas costas doem
E eu nem consigo mais chorar
Nem posso chamar-te
Por favor, nao volte
Nem olhe pra trás.
Fujamos para os lugares cômodos
E nos escondamos um do outro
Até nosso amor morrer.

(27 de janeiro de 1998)

Antítese


Figura: Hekate by Jessica Galbreth


Se ao menos eu pudesse ferí-lo
Eu o faria de modo poupar tua vida
Para que eu pudesse
Viver a parte restante contigo.
Sinto sua falta
Estou nas suas maos.

Penso em ti o tempo todo
No seu corpo,
No seu modo,
Na sua voz.
E sinto muita saudade.
Você só me fode a vida.

(27 de janeiro de 1998)

Nova Decisao

Figura: Another Eclipse by Amy Brown



Estive pensando
A respeito das pessoas.
É melhor que elas se virem sozinhas
E nao devemos ir atrás de ninguém.
Ao menos que seja para remir uma culpa.
As pessoas sao egoístas
É bom se envolver com os outros
Mas deixar que caminhem sozinhos.
Estou cheia das pessoas.
Elas vivem querendo mudar
os outros.
Falam mal e vivem juntos
Esquecem de unirem-se.
Já nem sei mais o que é uniao.
Nao estou OK.
Sinto que algo dentro de mim incha
E quer aflorar para explodir.
Mas vai se acumulando vagarosamente,
E quando explodir, o que irá restar?
As pessoas vivem querendo manipular
As outras de acordo com seus interesses
E conviccoes.
Devemos nos manter íntegros
Como estátuas de mármore
num dilúvio.
Choro pelos outros.
Minhas lágrimas é que materializam o dilúvio.
Há tanta mágoa, tanto rancor
Tanta ferida
Tanta pústula
Tantos machucados
Dentro de minhas vísceras
Nem sei onde comeca
E nem onde termina...
Me sinto sozinha,
Revoltada,
Incompreendida,
Insuportável.
Quero iniciar uma faxina interior.
Derrubar meus alicerces e
Erigir um novo prédio,
Com uma base forte
Com uma torre de vigia
Para de lá poder analisar as coisas
Como realmente sao.
E poder esquecer das coisas passadas.

(20 de setembro de 1993)

Tédio

Figura: Quiet Moment by Amy Brown



Um tédio grande que me engole
Impulsionado por um medo maior
Que parece estar sempre me virando ao avesso.
Me apavora pensar que estou sempre errada.
Aos poucos tento a libertacao
Tenho medo por falar tanto
E medo das pessoas.
Este medo é cíclico, sempre existiu,
Sempre existirá.
Ele chega, me apavora, me derruba
Me desmotiva de lutar.
A luta é minha vida, meu fôlego.
Entao me jogo nos prazeres,
na música, na noite, na poesia
Mas a sensacao de vazio permanece
Que nada é certeza,
somos apenas um grao de poeira
Uma leve brisa pode nos apagar.

(20 de marco de 1998)

Descoberta

Figura: Ishtar by Selina Fenech



Descobri o amor
Mas ainda nao o encontrei
Olho através dos muros
das paredes, das máscaras
dos sepulcros
Sem desanimar
Busco suas formas, suas dimensoes,
Suas nuances, suas dores
Evado-me para dentro de mim
como um útero fecundo
Aguardando o seu tempo.
Sinto-o com todos meus sentidos
Lavando minha essência
Peneirando meus átomos
Ebulindo minha alma.
Desatam-se as algemas dos meus punhos.
Finalmente sou livre!
Subitamente fecham-se minhas chagas,
cessam minhas dores,
seca-se meu pranto.
Grossas gotas de uma chuva divina,
forte, quente caem do céu
Carrega todos os meus galhos secos
e frutos apodrecidos.
Permaneco em pé, reluzente,
Deslumbrante
Linda como nunca.
Ao meu primeiro sorriso
Os céus desanuviam-se
e surge entao o arco-íris
L´arc en ciel!
O Sol ergue da terra
vapores perfumados
as aves tornam a cantar
Borboletas, plantas
Animais do bosque
Dancando...
A música da mae terra
O espírito da primavera
O cheiro da terra.
Posso voar
Devido à leveza do meu ser
Fecho os olhos
Cai o pano sobre minha consciência
e meus pés guiam-me como se tivessem asas
Ao despertar
Estou na nave principal
de um belíssimo templo
Em cada pintura,
Em cada poema inscrito,
Nos menores adornos,
Descubro a mim
e descobrindo a mim,
Percebo que o magnífico templo
nada mais é que meu próprio coracao
restaurado,
Em busca do outro ser,
Seu sumo-sacerdote.

(4 de dezembro de 1995)

Notívaga

Figura: Drawing down the Moon by Jessica Galbreth



O vinho destilando
minha mente
Sou um ser noturno.
Durante o dia,
Apenas me defendo
E sigo linhas pré-tracejadas.
No fim da tarde
Tenho findas minhas forcas,
Mas um pouco antes das doze badaladas,
Abrem-se flores noturnas
No meu espírito,
Vejo a luz
E tenho forcas
Tenho idéias
Tenho visoes`
À noite, bem à noite
Agucam-se meus sentidos
E sinto vontade de fazer
Tudo o que tive preguica de realizar durante o dia.
A noite aciona dispositivos na minha mente.
Percebo entao tudo o que nao vi de dia
Descortinam-se revelacoes
e delícias
Tenho sonhos
Tenho miragens
Mas todos os meus companheiros
Estao inconscientes
Nos bracos de Morfeu.

(14 de janeiro de 1996 às 23:15)

Fantasmas


Figura: Gothique by Jessica Galbreth


Fantasmas visitavam meu quarto quando eu era crianca.
Ficavam parados, ao pé da minha cama fitando meus olhos.
Agora, depois de muito tempo longe, voltam a invadir meus sonhos.
Fujo do meu quarto.
Acendo luzes. Ouco música. Mergulho em livros.
Mas eles nao estao mais lá.
Neste momento se encontram dentro de mim, em cada cômodo da minha casa, em cada esquina, em cada mesa, em cada olhar.
Sinto-os uivarem através das noites quentes.
Nevam e embotam meus dias.
Atordoam meus sentidos.
Anestesiam minha memória.
Quero gritar e eis que se apoderaram de minha voz.
Tento correr, mas recanalizaram minha energia vital.
Choro por dentro. Um pranto seco, sem lágrimas, sem solucos, sem respirar quase!
A solidao rasgando meu ventre com suas lâminas.
Desfigurando o meu corpo.
Mutilando os santuários mais perfeitos.
Por dentro e por fora e através de mim.
Me desmanchando, dissolvendo.
Volatilizando-me como éter e ascendendo rumo ao Ápex.

(21 de novembro de 1995)

Insônia


Figura: All Hallows Eve by Jessica Galbreth


Ouco o grito rouco dos animais perdidos na noite.
Seus grunhidos selvagens perturbam meu sono.
Seriam bestas, sem alento, uivando contra a escuridao?
Seriam almas, vagando, sem paraíso?
Ou seriam meus próprios pesadelos vivos emergindo
De um eu obscuro e renegado?
Seu cheiro está em mim
Sua voz está em mim
Ainda sinto seu gosto, seu corpo, seu vinho.
Tenho medo das sombras do meu quarto.
Meu corpo já nao me veste bem.
Já nao comporta mais a lava que este vulcao ora derrama.
Estas emocoes que nao compreendo, porém, nao deixo de amá-las,
e me transbordam
prostrando este corpo fraco, sem honra,
Quao pesado é o fardo do seu amor!
Seus beijos de fel ninam minhas quimeras
Tento fugir, mas estou fraca
Os demônios me alcancam
E me matam aos poucos numa ceia de torturas
Amordacada em meus gritos ensandecidos.
As uvas deste vinho mortal
Foram pisadas por Nosferatu
Para a desgraca de todos que vierem a te amar.

(08 de dezembro de 1997 às 3:25 PM)

O Dragao

Figura: Calisa by Selina Fenech



Dentro de mim há um deserto
onde bárbaros lutam
Regam a areia
e ungem suas espadas
com o sangue inimigo.
Seus cavalos sao feras carnívoras
suas armas sao feitas com os restos
de uma civilizacao que há muito tempo se foi
Lutam com suas últimas esperancas,
últimas forcas.
E o fazem porque têm obsessao
de exterminar o inimigo,
um imenso dragao de olhos negros,
impiedoso, dominador e altivo.
A luta é desesperada,
mas o dragao continua sereno
e soberano.
Quando o ferem profundamente,
ele retira-se mansamente,
certo de sua magnificência
para a sua gruta escura.
com seus bálsamos ele fecha as chagas,
cura as pústulas e volta
rugindo, enfurecido, escarnecendo,
e o brilho negro-triunfante nos olhos,
balancando os alicerces do planeta.
Os bárbaros se amedrontam,
mas eles também estao certos da vitória,
entao empunham suas espadas e escudos
e marcham para o ataque.
Assim luta a minha razao contra
minha emocao.
Os olhos negros que me subjugam
e minha vontade ferrenha que reergue
minhas muralhas.

(18 de outubro de 1993)

Dor

Figura: Autumn Winds by Selina Fenech




Teus excessos
Me atingiram
Num dia, no passado
Me provocaram uma morte parcial
Como se a dor me colocasse
Num estado alternativo
Descortinando minha visao
Para uma dimensao obscura.
Descobri formas
de desvendar a vida e seus mistérios
Apaziguar minha dor
Ainda viva
Pulsando
O vazio da parte extirpada
Pelo bisturi demoníaco.
Custei a encontrar um caminho
E ele se manifestou em luz e encanto.
Viro minhas costas
Cuspo em tudo o que passou...
Agora, no entanto, choras
Tentas me alcancar
Mas teus pés nao me alcancam
Pois estou entre duas dimensoes
Me abracas e seus punhos tocam seu coracao.
Estou numa cavalgada impossível
Meu cavalo é mágico e louco.
Sinto piedade,
mas nao posso parar.
Nao posso perdoar
teu desamor.
Tua indiferenca
Nao passará impune.
Faco nao por prazer,
Mas porque deve ser assim.
O meu céu era tao grande
que abrigava todo o seu
(e eu que imaginava o contrário...)
Teríamos tantas estrelas,
Eu te amava tanto
que a cada dia te dava
uma nova estrela
comecando pelas menores
E imaginando que fossem
todas assim, desprezaste-as.
No entanto, ao entrar em
outro mundo, depois de ter
todos os meus astros estilhacados
e chovendo do céu,
Meus sóis se ergueram
Contra ti em peleja
E nao pudeste conter
A forca com que lhe torravam.
Fizeste de minha vida
uma interminável noite
Sem lua
Sem estrelas,
Sem dia de amanha.

(26 de abril de 1996)

Viperina

Figura: Dark Angel by Jessica Galbreth Copyright 2005



Darei qualquer coisa
Para que você deixe
de me apunhalar
com suas palavras.
Por favor,
Quando extravasar sua dor
Pense na sensibilidade
Da alma dos que a rodeiam.
Às vezes nao sabemos criticar
Acreditamos que estamos construindo,
Que vamos mudar o comportamento
de outrem com palavras duras.
Mas a realidade
é outra.
Estamos destruindo,
arrasando, matando,
Jogando pedras nas faces das pessoas.
Tudo isto para fugirmos
De nosso próprio vazio
Da nossa própria angústia.
Às vezes também
Fazemos certas coisas
Achando que nao receberemos
Nada em troca.
Mas Deus é justo.
Fazemos o bem,
e por isso nos achamos
no direito de dominar o beneficiado.
Invadimos seus sentimentos,
seus ouvidos, sua felicidade,
sua alma.
Transgredindo assim o seu destino.
Impondo a ele um fardo duplamente pesado:
Primeiro pela vida em si nao ser fácil,
Segundo pelas nossas palavras
Que em nada ajudam.

(07 de fevereiro de 1994)

Minha vida

Figura: Fairy of Innocence by Jessica Galbreth Copyright 2005



A minha vida é assim mesmo,
Quem sabe,
Vamos ver...
Desde que comecei a
me entender como ser
E sendo ser
Comecei a escolher caminhos.
Acredito que escolhi
os melhores,
mas nao parei mais
de mudar.
Um ser-camaleao
Que se camufla
Se altera conforme as cirunstâncias.
Estou sempre assustada comigo
Vivo do mais puro sentimento
E por sentir tanto assim
Sinto-me muito triste
Nao sei como veio
Nem quando vai acabar
Nao estou em um buraco,
Mas atravesso um cemitério
Num dia frio
De céus cinzentos e úmidos.
Tudo morre...
Todos morrem.
Eu, porém sinto-me eterna
E tudo o que eu perder,
Se reaproximará
de mim
Como um gigantesco
e misterioso íma.
Talvez meus amigos
Estejam me chamando
de volta à cassa.
Mas sinto que nao
ultrapassei todas as barreiras
Preciso ficar
Ao menos até o verao
E ver o mar pela última vez.
Talvez no verao
Os raios do sol
me alimentem,
Eu armazene esta energia
E reviva,
Como eu tanto desejo.
E entao verei o mar
todas as vezes que quiser.
Ou, talvez o brilho do sol
Mate minhas sementes de tristeza.
E eu sinta o peso
se esvair
e floresca.
O sol virá,
é inevitável.
Entao, por favor,
abram as janelas
Afastem as cortinas...
Nem sei por onde comecar.
Entao comeco por uma coisa qualquer
Como é infinito,
Qualquer lugar pode ser o comeco.
Vou ficando mais leve
Mais bela
Mais feliz.
O ritmo é lento
às vezes me atordoa,
mas é assim.

(08 de julho de 1996)

Viagem

Figura: Night Fairy by Jessica Galbreth



Os carros passavam voando.
Na calcada, apoiada nas pernas
Andando nao sei como
Sentia vertigens
O desejo de combalir.
Meu ser sustenta-se
em meus escritos ao longo das vidas.
Tenho uma base pétrea e quadrada
Mas por ser quente,
Desmancho-me
Como manteiga sobre ela.
O que vejo, me encoraja
Mas essencialmente sinto medo.
Navego mansamente
Meus remos agraciam
a superfície d lago.
Absorvo o sol
Vivo e revivo
Vivo antes de acontecer
Alguns julgam-me
Outros dao o braco.
Embalo-me na rede
Vejo os galhos baloucando
sobre minha cabeca
Penso em dormir longamente,
Mas pegam-me no colo
E levam-me embora
Vejo, antes de ir,
Num relance, todo o jardim.
Já sinto saudade
Antes mesmo de partir.
Nunca deixarei este lugar
partir de mim.
Raramente nos encontramos,
Mas está aqui dentro.
Alguém vestido de negro
Conduz-me pela mao
Através de ruelas de pedra
Cavadas sinuosamente
na montanha.
Nao sei para aonde estou indo.
Acordo diante de barulho e fogo
Gritos de guerra.
Nada me assusta
Mas sou arrastada pelo braco
para o barco a remo.
Chego a Manhattan
como pasma,
cheiro o ar
Entro em todas as portas e becos
Leio cada página de sua cidade
Morrem os velhos
Despertam as criancas
Assombram-se os jovens
E permanco aqui
contemplando a tudo.

(sem data)

Amor imaginário

Figura: Mistic Mermaid by Jessica Galbreth


Brota límpida e mansamente de mim
Como a água brotando de uma rocha.
Segue seu curso natural
Mas eis que agora avoluma-se
devido a seus afluentes
e corre caudalosamente
na minha corrente sanguínea.
Quando tu sorris,
A tempestade arranca pedacos das minhas margens.
Quando me olhas dizendo coisas,
Transborda e submerge a cidade.
Quando me abracas,
Deságua num infinito oceano
Que é a minha alma
Onde me aprofundo
E descubro quem somos
O que somos
Tudo é silêncio
Apenas o marulhar das águas
Vejo em todos os tons de azul.
Mergulhando, desbravando
a paz.
É mais lindo que o céu, é
como estar no ventre da Mae Terra.
Quero ser a tua sereia...
Nao precisamos mais dizer palavras
Nao queremos ouví-las
Precisamos apenas nos olhar,
um ao outro através
deste espectro azul.
Quando anoitecer,
Emergiremos contar as estrelas
e interpretar os astros.
Nao olharemos para as luzes das cidades,
Já transcendemos este estágio.
Apenas navegamos o espaco
Como os planetas,
Universos que se locomovem
e se completam
Por meio das águas.

(2 de dezembro de 1995)

Espera infinita

Figura: Sirena by Selina Fenech



Espero indefinidamente
Pelo acaso que nos junte outra vez
Como se a qualquer momento,
Você estivesse prestes a chegar,
Cada esquina que virasse
Fosse te encontrar
O que diríamos um ao outro?

Com que olhos me olhastes?
Nao sei...
Tanto espaco indefinido
Pudestes ver-me
E apenas senti que me olhavas
Eram eloqüentes seus olhos,
Mas os meus turvaram-se
Tendo a ti diante deles.

Ah! Tarde infinita que nunca findará
Conténs todo o esmagamento concreto
Do desespero
E nao findas...
Tenho findas minhas armas
Minhas forcas e meu tempo
Só tu nao findas...

(Sem data)

Espera

Figura: Scared to fly by Selina Fenech



Estou aqui
Recostada à pilastra
No mesmo lugar
Onde me esperaste
Pela primeira vez.
Fostes.

E permaneco aqui...
Nao era uma noite tao bela
Tao quente, tao iluminada,
Mas eu tinha a ti

E permaneco aqui...
Diante desta calcada
Que imita as curvas do calcadao do Rio,
Da beira-mar, das músicas que tanto amas

E permaneco aqui...
Estacada, imóvel
Cercada e repleta de luzes
Continuo te amando
E de que adianta,
Em vao é meu esforco
Se nao podes ouvir-me...

E permaneco aqui...
Esperando por alguém
que nao sei se virá

(sem data)

Às vezes

Figura: Moon Queen By Jessica Galbreth


Às vezes acordo me sentindo puta
Dentro de um livro de Jorge Amado.
Às vezes acordo me sentindo um gato
Cubro a cabeca e nao saio da cama
Às vezes quero amar
Olho ao redor e abraco somente espinhos
Às vezes quero cacar
E encontro pequenas presas aos bandos.
Às vezes quero me vestir de branco
E ver o mar, mas ele está longe
E ver o sol, mas as nuvens o encobrem
Às vezes me imagino no último suspiro, morrer,
Às vezes invento novas formas de vida.
Às vezes vôo,
Às vezes mergulho,
Às vezes escavo,
Às vezes queimo,
Às vezes penso que sou feliz.
Às vezes fujo.
Às vezes volto.
Entao durmo espalhada nos livros pelo chao da sala
Subo nos telhados uivando teu nome
Saio pelas ruas vestindo as máscaras que te conquistaram
Às vezes nem sei quem sou eu mesma.

(16 de novembro de 1995)

Epitáfio

Figura: Impossible Love by Selina Fenech


Atravessaste o rio da morte... eu soube.
Nao estás mais entre nós
Tua matéria se foi, tuas cinzas agora
salgam o mar Mediterrâneo.
Nao me dói a perda,
Nem a separacao
Pois sempre estivemos intimamente ligados
Alcancaste a imortalidade dentro de minha alma
Fico feliz por cada segundo a teu lado
Nao carrego arrependimento
Foste meu herói, meu macho, meu brinquedo
Meu riso, meu pranto
Minha ferida mais profunda e meu bálsamo mais precioso.
(Algumas vezes nos ferimos, é verdade)
Teu suor e tua saliva estao em todos os vaos do meu corpo
Tua voz ainda enche meus ouvidos
E os gemidos que tantas vezes gememos em uníssono
Quando nossas frontes pendiam,
Esgotadas de tanto fazer e desejar...
Nossas almas se fundiam pelo prazer.
Saudade eterna...
cada vez que meu sexo pulsar entre as minhas pernas
Foste na minha vida a orgia ad infinitum
Minha nascente inacabável de prazer
E assim sendo estarás vivo em todos os meus orgasmos,
sonhos e fantasias...
Como se nossos fluidos fossem ferro em brasa,
a marcar nossas almas
Idelevelmente.
Segue contigo, para a outra margem do rio,
Um pedaco bem grande meu
Para que nao te esquecas de mim
E minha vida perde o brilho
Ao vislumbrar um mundo físico sem ti
Me fizeste grande
E nao seria assim, se nao fosses tu.

Sua amiga e amante que jamais te esquecerá

(08 de agosto de 2001)

Natasha

Figura: Enchantment by Jessica Galbreth


A moca russa nao tem nocao
Vestiu uma blusa comprida
e saiu na rua, fingindo que era um vestido.
Talvez ela pensasse mesmo que era.
Prendeu seus cabelos no alto da cabeca
e passou um batom vermelho.

A moca russa nao tem nocao
Se comporta como uma crianca mimada,
cortando a conversa dos outros
sem pedir licenca e dando
suas opinioes em momentos inoportunos.
Os outros riem dela.

A moca russa encontrou o amor
E ele vem buscá-la todos os dias,
chamando-a de tesouro
protegendo-a como a uma flor.
Para ele seu forte sotaque russo é extremamente charmoso
E ainda assim sorri para ela.

A moca russa encontrou o amor
Vê-se em sua linda pele
E no seu sorriso constante de orelha a orelha.
Por isso ela nao repara no que veste, no que fala
e no que os outros pensam dela.
A moca russa provoca nossas mentes, nossos risos e nossas boas maneiras.

A moca russa sim é que é feliz!

(28 de setembro de 2005)

Cantiga do amor como um laco

Figura: Elven Love by Selina Fenech Copyright 2005


Tuas maos entoando a lira...
Adormeco.
Teus olhos me deslumbram...
Me entrego.
Canta o teu riso...
Rio,
Desmanchando-me em rios
em luzes, perfumes e flores
Fecham-se nuvens de densos vapores
Chovo até esvair
Deténs meu pranto com um gesto de braco
Aniquilas minhas dores
Antes mesmo que venham à luz.

Sou um bicho qualquer...
te desejo de uma fome animal
Sou um corpo específico...
As ondas de sua volúpia me tragam para o fundo.
Sou mente pensante
Coracao florido
Te amo sem porquê,
sem saber
Dois fragmentos que encerram a cadeia.

Regas meu coracao aos beijos
Meus lábios transbordam
Em palavras que nao sei dizer
Coisas que nao poderiam ser escritas ou lembradas...
Nao tenho pressa, nem pretensao alguma
Como se fosse eterno.

Nao há nada além destas quatro paredes
E dois desejos
E dois sexos
E quatro pernas
E duas bocas...
Teus caminhos nao decifro: sao profanos
Rastejo entre arames farpados.
Teu amor é sagrado: teu corpo, um templo
Com um coracao vivente

Quero beber desta fonte: Ela nao se esgota
Quero me embriagar do teu amor...
Essa sede do desconhecido
Esse caminho que velozmente
Se abre diante dos meus passos
Essa lira que me embala
O desejo que me atordoa
Esses olhos que plantaram
As árvores da minha vida
E da minha morte...

(02 de setembro de 1996)

Fogo

Figura: Mirandaa by Selina Fenech




Suas fotos
Queimei-as todas
Juntamente com suas cartas,
Pecas de roupa esquecidas intencionalmente,
Entradas de teatro,
Presentes
Seu barbeador,
Seu isqueiro,
Sua chave reserva,
Toalha,
Cachorro de pelúcia,
Revistas e aquele boné horrível.
Gostaria de queimar esta cama
Quando lembro das noites
Queimar a casa,
Quando lembro da sua voz
O carro
As ruas por onde andamos,
Queimar na minha memória os momentos divididos
Queimar os lugares que entramos
Queimar a cidade inteira.
Nesta inquisicao somente nao é possível
cauterizar a ferida que me incendeia e
consome minhas forcas

(Sem data)

Amor

Figura: Rendez-vous by Selina Fenech


A transfusao de um ser para outro.
Um completamente leve, irreverente e descabido.
Outro pesado, imóvel e irreversível.

Alvorece o conflito. Amam-se infinitamente desde o surgimento do grande disco prateado no céu, até que o dia comece a infiltrar seus fluidos rosáceos na treva. Entao, alongam-se as sombras nas paredes do quarto, até sumirem. Abandonam-se a si mesmos e envolvem o objeto do desejo que jaz ao lado e sonham imensamente como seria bom se pudessem ser sempre assim. Às vezes choram, às vezes riem. Algumas vezes beijam, outras vezes batem. Nao se preocupam com o que há além daquelas quatro paredes.

O primeiro ser imprime a vida, vive do sentimental, conhece um ouco de casa coisa com suas matizes e perfumes, sua missao é o encontro com a beleza e a celebracao da plenitude de viver.

O segundo vive monasticamente, absorvendo a natureza pelos lagos de seus olhos. Contemplando, aprendendo, observando. Procurando paz e equilíbrio no amor.

Ambas almas se confundem num palco onde explodem instrumentos liberando orgasmos aprisionados. Diluem-se as cores em luzes, raios por todas direcoes e sentidos, velozmente em cada compasso da mais divina sinfonia. A platéia se prostra aterrorizada com o tremor de seus próprios ossos. Aos prantos, temendo e reverenciando tao grande espetáculo, quase descrendo de seus próprios olhos.

Mulheres vaidosas, prostituídas, arrancam seus cabelos artificiais, apesar dos tafetás e sedas, se ajoelham e permitem que as lágrimas lavem suas máscaras.

Homens volúveis, dissimulados, rasgam suas caras vestes em holocausto aos próprios pecados. Com esse gesto expoem-se em toda sua nudez, vulneráveis. Repartindo o vil metal em oferendas a deuses estranhos.

Repentinamente uma luz prateada desce dos céus envolta em uma neblina seca e perfumada, o nevoeiro alvamente se condensa. Ninguém mais enxerga. Entornam seus próprios venenos e torcem-se pelo chao, batendo-se convulsivamente em estertores letais ou espasmos da maldicao.

E eis que fende-se o solo em um canyon e os vapores verdes escapam do inferno ceifando a todos para o centro da Terra onde reside o Diabo.

Entao as cortinas se permitem fechar e os dois amantes vao colher flores ao amanhecer. Essas flores cobrirao de consolo os túmulos daqueles que covardemente fugiram do amor.

(setembro e outubro de 1995)

Beleza da vida

Figura: Fairy of Inspiration by Jessica Galbreth Copyright 2005


O despertar de cada dia
Me traz à consciência que é
um milagre da vida renascendo
Portanto, procuro fazer meu
fardo mais suave, vivendo alegre
e procurando pela beleza
Em cada face, em cada paisagem,
Em todos poemas.
Vivo nao pela funcao de existir,
mas sim de me apaixonar por quem sou
e pelo que faco.
Vivendo um dia de cada vez.
Um brinde ao milagre da vida,
o que proporciona prazer a pessoas
especiais como você!
Seja muito feliz!!!

(05 de setembro de 1995)

Sobre a Paixao

Figura: Sea of Roses by Selina Fenech Copyright 2005


Hei de convir que seus beijos
Nao eram diferentes dos demais.
Nem que fosse o mais belo
Entre os outros
Designava, porém,
A especialidade do meu desejo: um lorde
Legitimadade sem imposicao
Espontaneidade de atitudes.
Nunca bracos foram tao calorosos
Nem olhos mais ardentes
Aventura entre mil
Um noite entre milhares
Comprometeu meu coracao
Me fez subir às nuvens
E descer às catacumbas
Contemplar o vôo das aves
E desejar o caminho dos ratos.
Queimava viva e naturalmente como fogo
Deliciava como vinho branco gelado
servido em tacas de cristal
Me embriaguei e quando acordei,
Estava em alto-mar
Já nao havia mais volta

(09 de junho de 1995)

Encontro

Figura: Fairy of Truth by Jessica Galbreth Copyright 2005


Entre os prédios,
O céu repousava azul intenso
O sol raiava placidamente
A brisa fazia dancar a folhadara
E eu agonizantemente me consumia
Enquanto assisitia a este mágico espetáculo
Queria deitar na grama
Respirar fundo,
Contemplar o céu e as nuvens passantes
Permitir-me um momento de sossego
E me concentrar no melhor
No mais belo dos meus pensamentos
Dissecá-lo até dormir
E sonhar com os anjos cabalísticos,
Que eles vieram para me levar viajar.
Quando voltasse, já nao seria mais eu
E sim o verdadeiro eu
Timbrando todas minhas atitudes.
Selando todos os meus contratos
Efusivamente liberando vapores perfumados
Inundando todos os ambientes
Contagiando todos os seres.

(08 de junho de 1995)

Despedida

Figura: Morgaine by Jessica Galbreth Copyright 2005


Subi numa palmeira
Tentei avistar o que havia além da linha do horizonte,
Descobri que depois dela
O mundo acabava e que nós estávamos
Cercados de céu por todos os lados
Beijei meu amor e por medo,
Desejei que partisse,
Mesmo ele nao querendo ir
Na verdade eu também nao queria,
Pois seria a última vez que nos veríamos
Em sua bagagem configurava uma
caixa prateada,
A qual continha o meu negro coracao.
Foi-se, sabe Deus pra onde,
Levando consigo a minha vida.
Agora nao durmo mais as noites
E nao vivo mais os dias.
Só porque deixei ir
Aquele a quem tanto amo.

(08 de junho de 1995)

Entre espinhos

Figura: Watching the Moon by Selina Fenech Copyright 2005


Entre seus espinhos procurei flores
Encontrei-as asfixiadas,
eram frágeis demais para
tantos espinhos.

Estas sao minhas flores.
Inexoravelmente secarao.
Restará somente uma vaga
lembranca.

Despertei de um sonho.
Era apenas um sonho...

(12 de dezembro de 1995)

Noite

Figura: Afrodita


Noites,
Lugares,
Olhares.

Carros,
Luzes,
Avenidas,
Bares.

Você chega
E visto a máscara,
Coloco asas nas escápulas
Me enfio num tubinho preto.

Nao sabe quem sou
No entanto
Lanca-se em desatino
Nos meus bracos.

Unha minhas pernas
Sem saber por onde andam
Morde minha boca
Sem acreditar no que ela diz.

Vivemos juntos e calados
Como livros numa estante
Colados, lado a lado.

(06 de julho de 1995)

Tocatta e Fuga

Teus bracos inquietantes
Descubro-me prisioneira
De minha própria liberdade
Enjaulada em um canto aberto
Como um bicho acuado
Por mais que resisto
Em vao se torna meu sacrifício
Buscas-me através das noites
E, pura de meu ideal,
Sigo-o através de caminhos
Noturnos
Lascivos
Pantanosos
Fecho minhas portas ao amanhecer,
Mas sou puxada
Impiedosamente pela aura magnética
que te envolve.
Corro, fujo, te esmurro
Para nao perceberes
que
sou
tua

(Sem data)

Devaneios em vidas passadas

Deitada na cama
Com a caneta apoiada na testa
Tantas idéias, imagens, vozes, sonhos
E no entanto sinto-me impotente,
Encolhida de medo de um pedaco de papel
Navego através dos últimos meses de minha vida
Um dia claro
Céu azul e um sol tranqüilo
Caminho e vou olhando os monumentos,
que erigi durante minha vida, destruídos
Da relva úmida brotam vapores
Sinto que há algumas horas um tufao passou pelo local
(O local é minha vida)
Contemplo o que restou: ruínas
Porém nao consigo designar
Tenho ainda um pouco de medo
Trago um punhado de fraqueza em minha mao
enquanto a outra carrega uma espada
Que ainda nao sei empunhar.
Vivi, vivo e estarei sempre vivendo.
Sinto que o que sou nao é de agora
É de muito tempo
Muito antigo
Que já pertenceu a outras eras
E outros lugares.
Que fui homem de guerra
que vivi em desertos
Que bebi sangue
Cavalguei dromedários
Tive barba
Que amei e possuí mulheres,
Das quais nao me lembro,
em jardins através das noites dos séculos.
Fui amante da música
Vesti roupas caras
Em saloes adornados
Vivi em luxo e grandeza
Sem me importar com o dia seguinte
E nesta outra vida minha alma era de prazer.
Existem outras vidas das quais nao saberia dizer agora
Mas trazem marcas na minha alma
Neste momento estou aberta e vulnerável
Como se uma fenda se descortinasse no coracao
da minha essência
E este véu, sendo despido, revelasse todos
os meus segredos a mim mesma.
(Houve uma vida, muito remota
em que fui mae de muitos filhos
E outra em que vivi pouco tempo...)
Fui mais homem que mulher.
Me entendo por ser incisiva e forte
Nao consigo
equilibrar a Psiquê da minha alma
Somente o Eros
Um espírito forte e aventureiro
Muito velho, muito viajado
Que conhece os mares
Os dialetos
Os cantos do mundo
E os segredos dos entardeceres
Sofreu, chorou, amou
Perdeu, ganhou
Contou histórias
Contou estrelas
Bebeu, dancou
Mas acima de tudo, foi de guerra.
Nesta vida, trago as medalhas todas
No âmago do meu ser
No entanto deponho as armas
Sou de paz
É meu primeiro passo rumo ao nirvana
Esse bordao sobrepujará minhas medalhas
Ando descalco pelos Andes
Nao temo huyacos nem lobos
Sei disso porque desde esta minha infância
Contemplei a lua e as estrelas através das noites
Elas me ensinaram a nocao de
eternidade da vida
Descortino-me mulher
sozinha, aventureira
e disposta a conhecer o mundo
Cada dia é uma colherada de mel
Cada pessoa um desafio
Nao posso me deixar abater,
Perderei muito tempo
Por ser muito jovem, talvez isto nao importe,
Mas nao desperdicarei sequer um segundo
Tenho fome de vida
E sede de aventura.

(Sem data)