Deitada na cama
Com a caneta apoiada na testa
Tantas idéias, imagens, vozes, sonhos
E no entanto sinto-me impotente,
Encolhida de medo de um pedaco de papel
Navego através dos últimos meses de minha vida
Um dia claro
Céu azul e um sol tranqüilo
Caminho e vou olhando os monumentos,
que erigi durante minha vida, destruídos
Da relva úmida brotam vapores
Sinto que há algumas horas um tufao passou pelo local
(O local é minha vida)
Contemplo o que restou: ruínas
Porém nao consigo designar
Tenho ainda um pouco de medo
Trago um punhado de fraqueza em minha mao
enquanto a outra carrega uma espada
Que ainda nao sei empunhar.
Vivi, vivo e estarei sempre vivendo.
Sinto que o que sou nao é de agora
É de muito tempo
Muito antigo
Que já pertenceu a outras eras
E outros lugares.
Que fui homem de guerra
que vivi em desertos
Que bebi sangue
Cavalguei dromedários
Tive barba
Que amei e possuí mulheres,
Das quais nao me lembro,
em jardins através das noites dos séculos.
Fui amante da música
Vesti roupas caras
Em saloes adornados
Vivi em luxo e grandeza
Sem me importar com o dia seguinte
E nesta outra vida minha alma era de prazer.
Existem outras vidas das quais nao saberia dizer agora
Mas trazem marcas na minha alma
Neste momento estou aberta e vulnerável
Como se uma fenda se descortinasse no coracao
da minha essência
E este véu, sendo despido, revelasse todos
os meus segredos a mim mesma.
(Houve uma vida, muito remota
em que fui mae de muitos filhos
E outra em que vivi pouco tempo...)
Fui mais homem que mulher.
Me entendo por ser incisiva e forte
Nao consigo
equilibrar a Psiquê da minha alma
Somente o Eros
Um espírito forte e aventureiro
Muito velho, muito viajado
Que conhece os mares
Os dialetos
Os cantos do mundo
E os segredos dos entardeceres
Sofreu, chorou, amou
Perdeu, ganhou
Contou histórias
Contou estrelas
Bebeu, dancou
Mas acima de tudo, foi de guerra.
Nesta vida, trago as medalhas todas
No âmago do meu ser
No entanto deponho as armas
Sou de paz
É meu primeiro passo rumo ao nirvana
Esse bordao sobrepujará minhas medalhas
Ando descalco pelos Andes
Nao temo huyacos nem lobos
Sei disso porque desde esta minha infância
Contemplei a lua e as estrelas através das noites
Elas me ensinaram a nocao de
eternidade da vida
Descortino-me mulher
sozinha, aventureira
e disposta a conhecer o mundo
Cada dia é uma colherada de mel
Cada pessoa um desafio
Nao posso me deixar abater,
Perderei muito tempo
Por ser muito jovem, talvez isto nao importe,
Mas nao desperdicarei sequer um segundo
Tenho fome de vida
E sede de aventura.
(Sem data)